Setembro passado, com os amigos Jaci e Reneu Colferai; fomos à Itália para conhecer as regiões do Veneto e Toscana. Na ocasião pudemos constatar a paixão dos italianos com relação as suas regiões, sempre tão distintas, ficando evidente o bairrismo, semelhante ao nosso quando as defendem. De Milão nos deslocamos pela autostrada em direção à província de Treviso, com destino final na cidade de Montebeluna. A autostrada corta a região mais plana da Itália com plantações dos dois lados lembrando a topografia do Oeste do Paraná.
O território Veneto possui 57% de planície, 29% de montanha e 14% de colina. Na província de Padova, uma cidade histórica com sua fortificação tem especial importância para mim: Cittadella, “Città D’Arte”, por ser a cidade de onde partiram meu avô e seus familiares. Muros a protegem e antigas portas nos deixam entrar para admirar a belíssima praça central com sua igreja de tantos séculos nos convidando para uma reflexão.Qual não foi nossa surpresa ao depararmos com os nomes dos santos protetores da comunidade – “Parrocchia Dei Santi Prosdócimo e Donato Di Cittadella”- explicando a origem do nome de meu pai e seu avô. Em uma gelateria próxima, em conversa informal, um engenheiro de ferrovias que retornava de uma longa temporada de trabalho na Nova Zelândia nos revelou que muitos Guerra permaneceram naquela linda cidade, inclusive sua esposa tinha o sobrenome Guerra. Cittadella nos deixou com nostalgia e promessa de uma nova visita.
Montebelluna, cidade de onde partiram os Colferai, é a capital do tênis e dos óculos e talvez seja a cidade da qual mais pessoas tenham partido em busca de nova perspectiva de vida e oportunidade. Numa das praças tem um monumento que mostra a figura de um emigrante com a mala de viagem simbolizando sua partida. Simplesmente oitenta por cento deixaram a cidade. Os que ficaram mudaram o perfil econômico regional implantando o conceito de qualidade no que faziam. Inicialmente consertando óculos e remendando calçados para depois se tornarem fabricantes das maiores marcas mundiais destes produtos.
No jantar que nos foi oferecido em Montebelluna, com pratos e vinhos típicos, tivemos a oportunidade de conversar com seus filhos ilustres entre eles dois “sindacos” que são os prefeitos na Itália, um bispo que morou no Brasil por muitos anos, empresários e demais pessoas envolvidas na cultura como o Sr.Arnaldo Guerra Borbin, presidente da Associação Trevigiana Nel Mondo. Neste encontro constatamos a preocupação destas pessoas em resgatar o dialeto do veneto, já desconhecido na Itália.
Explico. No ano de 1.300, na Itália, se falava língua diferente em diversas regiões e o dialeto regional derivava do latim. Grandes escritores toscanos, Dante, Petrarca e Boccaccio escreveram suas óperas não em latim mas no idioma que o povo falava na Toscana, que se transformou na língua nacional. Portanto, após a partida dos emigrantes e com a unificação da Itália o idioma oficial passou a ser o italiano clássico falado em Florença, sendo esquecido o dialeto, mas que permanece de geração a geração no sul do Brasil.
Com a colaboração da Associação Trevigiana e Veneta Nel Mondo, diversas ações estão sendo realizadas, como, apresentações de corais, intercâmbios e programas de rádio gerados diretamente da Itália ao vivo e falado neste dialeto. È um débito a saldar com o passado.
No final do alegre jantar, verificamos a enorme dificuldade dos italianos em compreender nosso dialeto. Jaci e Reneu que falam o dialeto do veneto precisavam da ajuda da Carmen que fala o italiano clássico na tradução, eu, misturo os dois e me defendo.
Na despedida, a frase final dirigida ao Reneu expressa bem o bairrismo que impera nas regiões: “Non dimenticare che tu sei um trevigiano.”
